Péssimas condições de segurança há anos da Feira da Madrugada no Brás em São Paulo mostram as contradições da cultura do brasileiro que transformou a tragédia no incêndio em Santa Maria/RS em comoção nacional e caça aos donos da boate Kiss.

Um assunto que tem sido notícia em São Paulo nas últimas semanas é a Feira da Madrugada no bairro do Brás em São Paulo. Não sei porque, após anos de funcionamento, os Bombeiros resolveram fazer uma vistoria no local e constataram inúmeras irregularidades e graves problemas de segurança. Imaginem um monte de lojinhas amontoadas uma em cima da outra, cheio de gato (fiação elétrica exposta e amontoada), aperto e muita gente circulando e pirataria rolando solta. Locais como estes existem vários espalhados pelo Brasil e todo mundo sabe onde está.

Devido a todas estas irregularidades, os Bombeiros e a Prefeitura estão travando uma batalha para conseguir interditar o local. Conforme links a seguir:

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,bombeiros-recomendam-fechamento-da-feira-da-madrugada-por-falta-de-seguranca,1030877,0.htm

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,haddad-diz-que-pode-recorrer-de-decisao-que-mantem-a-feira-da-madrugada-aberta,1031375,0.htm

Tivemos uma tragédia ocorrida em Santa Maria/RS na boate Kiss. Um incêndio que tirou a vida de muitas pessoas. Algo realmente lamentável que virou uma comoção nacional.

O que fica difícil de entrar na minha cabeça é que um incêndio na boate Kiss gerou tantas manifestações, transformou os donos da boate Kiss dos mais populares da cidade nas pessoas mais odiadas do Brasil da noite para o dia, enquanto isso um local como este no Brás fica travando batalhas judiciais com liminares para manter um local de alto risco em funcionamento, E NINGUÉM SE MANIFESTA, NINGUÉM RECLAMA NADA. Milhares de pessoas passam por lá diariamente e são contra a interdição pois ganham dinheiro com isso.

Isso me faz pensar em muitas coisas: 1) por que um lugar desses fica em funcionamento por anos sem qualquer questionamento?; 2) onde está a fiscalização em antros que todo mundo conhece e sabe que rola pirataria e irregularidades de todo tipo?; 3) é correto querer interditar da noite para o dia um local que apresenta problemas sem oferecer um prazo para regularização?; 4) esta feira é o ganha pão de centenas de famílias que vendem e compram mercadorias para revender e sacoleiros de todos os tipos… até que ponto a segurança está em primeiro lugar?; 5) não seriam os compradores e vendedores da Feira da Madrugada tão negligentes quanto os donos da boate Kiss??

São muitas perguntas que eu não sei a resposta, mas sei como as coisas deveriam ser. Ao abrir qualquer local, deveria haver fiscalização e que fosse feita anualmente. Isto já ocorre, pelo menos na empresa que tenho. Porém se eu não fizer a renovação ou esquecer dos prazos, nenhuma fiscalização vem bater na minha porta. Deveria ter uma fiscalização mais atuante.

Os bombeiros que visitaram minha empresa foram totalmente profissionais e em nenhum momento me tratou de forma errada, nem pediu nenhuma propina (fato raro em muitos orgãos públicos).  Devo confessar que há fiscais mais exigentes e outros menos exigentes, mas eu também sempre deixei tudo em ordem e bastante extintor disponível e sempre carregado.

O que acabo concluindo é que está na cultura do Brasileiro sempre querer dar um jeitinho… o jeitinho brasileiro também no quesito segurança. Fazer uma gambiarra, fazer um puxadinho… é muito caro, eu não vou fazer. Tem um produto com selo Inmetro e tem outro sem selo nenhum porém é mais barato… vou comprar o mais barato. A população cobra tudo dos empresários (ou empresas) ao comprar produtos: cobra nota fiscal, exige garantias, questionam se tem certificação, querem tudo direitinho. Porém esta mesma população age diferente no seu dia a dia quando envolve o dinheiro do próprio bolso. Andam com pneus carecas, não recarregam extintores de seus carros, faróis queimados, gatos e gambiarras de todos os tipos, obras irregulares, compram produtos de camelôs que não emitem nota fiscal e mal possuem uma embalagem, e por ai vai. O que adianta as empresas investirem em produtos mais seguros, se o brasileiro só quer saber de preço baixo?? Um pequeno empresário que tira seu ganha pão da empresa não deveria ter os mesmos direitos e deveres de um camelô que tira seu ganha pão numa feira dessa?? Posso realmente estar exagerando nesta última comparação, mas sempre penso nas lojas do centro que pagam impostos, aluguel, pagam todos os encargos trabalhistas em dia, paga multa ou processos por qualquer irregularidade, e vários camelôs nas portas destas lojas vendendo os mesmos produtos e fazendo concorrência sem recolher nenhum imposto, nada de carteira assinada e tal, e muitos consumidores que são cúmplices disto tudo. Coitadinhos dos Camelôs!!!!

Agora tenho que dar razão ao pessoal da Feira da Madrugada num sentido: não tem cabimento fechar todo o local, prometendo fazer uma mega obra dizendo que em 2 meses eles poderão voltar. Sabemos que obras do governo nunca ficam prontas e assim como qualquer pequeno empresário, não pode ficar sem vender nada por 2 meses (ou mais). Fecha a metade, arruma os problemas e depois arruma a outra metade. Não podemos ser radicais.