Quer saber como é tratar com peão de fábrica ou mão de obra desqualificada, pergunte para quem tem empregada doméstica.

Minha esposa estava reclamando do mal comportamento e falta de comprometimento da nossa empregada doméstica após mais de 2 anos com a gente. Vale dizer que ela é registrada e sigo rigorosamente as leis trabalhistas. É raríssimo encontrar alguma pessoa que não troque constantemente de empregada ou que esteja totalmente satisfeita. Ouço bastante “não estou satisfeito/a mas sei que não vou encontrar melhor”. Quem encontra uma empregada doméstica comprometida, não quer perde-la por nada.

Terminei a conversa com ela dizendo: você está irritada e não sabe o que fazer tendo 1 empregada em casa, imagina eu que tenho dezenas na minha empresa.

Como este tipo de conversa entre “peão” e “patrão” nunca será totalmente imparcial e verdadeira, vou tentar discutir alguns pontos que percebi ao longo dos anos e tentar me colocar do lado do “peão” e do “patrão” fazendo analogia com a empregada:

– a faixa salarial de empregada doméstica fica entre R$600 e R$1.000. Seja na minha casa ou em outra qualquer, isso será o que ela receberá. Realmente com este salário, qualquer pessoa leva uma vida apertada;

– poucas famílias teriam condições de pagar acima disto;

– trata-se de mão de obra desqualificada, ou seja, qualquer pessoa com boa vontade tem condições de fazer;

– o serviço que a empregada faz hoje será o mesmo hoje ou daqui a 2 anos: lavar, passar, cozinhar, limpar, ou seja, serviços gerais de casa. E mesmo que agregue novas funções, serão tarefas que não requer qualificação. Exceto se a família ficar maior, não haverá aumento significativo do trabalho a ser realizado e que não possa ser realizado dentro das 44 horas semanais que estipula a CLT.

Acredito que é um pouco da natureza humana uma acomodação ao longo dos meses ou dos anos fazendo a mesma coisa. A limpeza começa a não ser feita da mesma maneira, as roupas começam a ficar manchadas, quebradeira de prato e copo, etc. A essa altura já temos que começar a chamar a atenção. Neste ritmo, o clima começa a ficar cada vez pior. Esta acomodação fica potencializada pelo fato do salário ser baixo e por isso, este processo de descontentamento ocorre mais rápido por parte do empregado.

Fazendo um paralelo em uma empresa, ocorre a mesma coisa com ajudantes de produção, operadores de máquina, pessoas contratadas para carregar e descarregar material, etc. Já ouvi também funcionário dizendo “não ganho para isso” (para mim essa frase não se justifica pois foi o funcionário que aceitou o emprego, inclusive o salário. Se não concorda com o valor ou com as atividades, então peça demissão). A diferença que existia até pouco tempo, é que um funcionário de empresa nunca pede a conta para não perder a multa do FGTS, seguro desemprego, entre outros benefícios. A empregada não tinha custos rescisórios, por isso, era mais fácil a empregada procurar outro emprego ou o patrão mandar embora. Agora que as domésticas gozarão dos mesmos benefícios, os empregados vão começar a agir cada vez mais errado para serem mandados embora e ganhar os benefícios que correm por conta do “patrão”.

3 comentários em “Quer saber como é tratar com peão de fábrica ou mão de obra desqualificada, pergunte para quem tem empregada doméstica.

  1. Michel disse:

    Eu já li que o Brasil é um dos países com o maior número de empregados domésticos no mundo. Quando eu vim ao Brasil, não entendia porque tinha tantos diaristas e faxineiros por toda parte. Agora eu sei que era por causa da desigualdade e da falta de instrução.

    Brasileiros pensam que os países ricos devem ter mais empregados domésticos pois têm mais dinheiro. Não é o caso. No meu país de origem, eu não conhecia nenhum empregado assim. Zero. Porque? Porque custa caro demais e o povo sempre faz tudo pessoalmente. Claro, famílias ricas em países ricos podem ter empregados em casa, mas a maioria é pessoas de origem estrangeira sem qualificação. Ultimamente eu assisti no YouTube a uma entrevista da esposa do Clint Eastwood. Ela falava que, antes que eles casaram, ela perguntou para ele “Onde estão seu motorista, seu guarda-costas, seu…?” O Clint não tinha ninguém aparentemente apesar que tinha dinheiro suficiente para contratar milhares de pessoas. Aqui no Brasil, quem tem condições sempre contratam empregado(s) doméstico(s), não é? É também diferença de cultura.

    O Brasil vai ter cada vez menos empregadas domésticas com certeza. Se custa caro demais, não compensa. A desigualdade não é uma coisa boa, mas onde não tem muita desigualdade (= muitos pobres), esse tipo de mão de obra some.

    Eu acabei de comentar em outra página de seu site “O crescimento do país não significa necessariamente uma vida melhor para todo o mundo.” Se a economia cresce, a renda também deveria crescer ao mesmo ritmo, mas isso não acontece para a maioria. O custo pode aumentar muito mais que a renda enquanto uma minoria fica com muito dinheiro. Podemos perder as empregadas domésticas e nos tornar empregados do sistema. (Já somos?)

    A China cresceu muito pois tinha muita gente pobre demais e sem qualificação. Agora muitos são ricos e o salário está muito mais alto, mas a maioria continua pobre e eles têm mais dificuldades do que antes. Pessoalmente acho que a China vai explodir cedo ou tarde. O partido comunista vai perder o controle. Se a China explodir, o mundo também pode explodir.

  2. Ricardo Mota disse:

    Parabéns pelo blog.
    Mesmo com excelente conteúdo, que tal indicar, quando cabível, livro para aprofundamento?
    Ficamos com “água-na-boca” de “como é tratar com peão de fábrica ou mão de obra desqualificada”: a situação ficou clara mas a sugestão das melhores práticas para bons resultados seria muito bom.

    • LucianoFreire disse:

      não conheço esse tipo de livro pra indicar, mas quando eu descobrir essa receita mágica, eu te aviso! Estou tentando há muitos anos nas minhas empresas, mas o grande desafio é ter as margens de lucro cada vez mais apertadas e conseguir incentivar funcionários que não seja gastando dinheiro (ou benefícios que não envolvam aumento de custos).

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